corvo

O Corvo

Tradução de Machado de Assis (1839 - 1908)

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora, 
Eu caindo de sono e exausto de fadiga, 
Ao pé de muita lauda antiga, 
De uma velha doutrina, agora morta, 
Ia pensando, quando ouvi à porta 
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;

Há de ser isso e nada mais."
Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia 
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

E o rumor triste, vago, brando 
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito, 
Levantei-me de pronto e: "Com efeito 
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais. 
É visita que pede à minha porta entrada;
Há de ser isso e nada mais."

Minhalma então sentiu-se forte; 
Não mais vacilo e desta sorte 
Falo: "Imploro de vós – ou senhor ou senhora –
Me desculpeis tanta demora. 
Mas como eu, precisado de descanso, 
Já cochilava, e tão manso e manso
Batestes, não fui logo prestemente,
Certificar-me que aí estais." 
Disse: a porta escancaro, acho a noite somente, 
Somente a noite, e nada mais.
 
Com longo olhar escruto a sombra, 
Que me amedronta, que me assombra, 
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado, Calado fica; a quietação quieta: 
Só tu, palavra única e dileta
Lenora, tu como um suspiro escasso, 
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço; 
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Eia, fora o temor, eia, vejamos 
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais. 
Devolvamos a paz ao coração medroso. 
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente 
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias,
Não despendeu em cortesias 
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto 
De um lorde ou de uma lady. E pronto e reto
Movendo no ar as suas negras alas. 
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.
 
Diante da ave feia e escura, 
Naquele rígida postura,
Com o gesto severo – o triste pensamento 
Sorriu-me ali por um momento, 
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa, 
Diz os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o corvo disse: "Nunca mais."
 
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera 
Dificilmente lha entendera. 
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta, 
Num busto, acima dos portais, 
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta 
Que este á o seu nome: "Nunca mais."
 
No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra que ali disse 
Toda a sua alma resumisse 
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais! 
Perderei também este em regressando a aurora. 
E o corvo disse: "Nunca mais.
 
Estremeço. A resposta ouvida 
É tão exata! é tão cabida! 
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência 
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais 
Só lhe ficou, da amarga e última cantiga,
Esse estribilho: "Nunca mais."
 
Segunda vez, nesse momento, 
Sorriu-me o triste pensamento; 
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera.
A alma, o sentido, o pávido segredo 
Daquelas sílabas fatais, 
Entender o que quis dizer a ave do medo 
Grasnando a frase: "Nunca mais."
 
Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjecturando, 
Não lhe falava mais; mas se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjecturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto, 
Onde os raios da lâmpada caíam, 
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam, 
E agora ali não se esparzem mais.
 
Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso. 
Obra de serafins que, pelo chão roçando 
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro tributo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível 
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora." 
E o corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno 
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado 
Venhas do temporal que te há lançado 
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo 
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: "Existe acaso um bálsamo no mundo?" 
E o corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala, 
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ele chora 
Nestes retiros sepulcrais. 
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!" 
E o corvo disse: "Nunca mais."
 
Ave ou demônio que negrejas! 
Profeta, ou o que quer que sejas! 
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa! 
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo 
Pluma que lembre essa mentira tua, 
Tira-me ao peito essas fatais 
Garras que abrindo vão a minha dor já crua." 
E o corvo disse: "Nunca mais."
 
E o corvo aí fica, ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho. 
Parece, ao ver-lhe o duro cenho, 
Um demônio sonhando. A luz caída 
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais 
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca mais.

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