TrekkerCultura

TrekkerCultura® -  Boletim Cultural - N. 11

Frota Estelar Brasil

Boletim publicado em 1993.

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Alerta amarelo! Chegou aos meus ouvidos a notícia de que alguns leitores deste boletim estariam sendo vítimas de overdose. Sim, overdose de Shakespeare! Fui acusada de ser viciada no Bardo inglês e estar tentanto impor meu vício a todos os leitores do TrekkerCultura. Mas não é bem assim. Os roteiristas dos episódios de Star Trek é que eram viciados em Shakespeare. O que eu faço - aliás, esta foi minha proposta desde o início - é apenas mostrar esse "vício" aos fãs da série. Em todo caso, aos que estão sofrendo a síndrome de overdose aqui vai uma promessa: depois deste número vamos falar de outras coisas. Asseguro, porém, que este não será, em absoluto, o último boletim a tratar de uma obra do grande dramaturgo e poeta inglês. Há ainda muito Shakespeare em Star Trek e, portanto, haverá muito Shakespeare aqui também.

Para concluir o episódio The Conscience of the King (A Consciência do Rei), que, como eu disse, é o mais explicitamente shakespeareano de toda a série, falaremos de Júlio César, uma das peças históricas de Shakespeare. Júlio César é uma das figuras históricas que mais causam controvérsias entre historiadores. Alguns o exaltaram como herói sobre-humano, outros chegaram a tachá-lo de insignificante. Convém evitar os extremos, já que eles raramente se aproximam da verdade. Mas o fato é que essa ambigüidade aparece até quando ele é mencionado em Star Trek. Em mais de um episódio ele é apontado, inclusive pelo Capitão Kirk, como um ditador implacável. Mas o próprio Kirk parece não se importar quando as mulheres o comparam a César. Todos certamente se lembram da cena do episódio A Consciência do Rei em que Kirk e Lenore estão no convés de observação da nave e ela o chama de "César das estrelas". Kirk não parece nada ofendido; muito pelo contrário, fica encantado e lhe dá um beijo.

Júlio CésarQuem foi Júlio César e qual sua importância histórica? O período que se estendeu do fim das guerras púnicas, em 146 a.C. a aproximadamente 30 a.C., foi um dos mais turbulentos da história de Roma. A nação estava colhendo os frutos da violência semeada durante as guerras de conquista. Tornaram-se comuns, nesse tempo, os conflitos de classe, assassínios, lutas entre ditadores rivais, guerras e insurreições. Num cenário de crise, é comum o povo esperar por um "salvador da pátria", um líder que represente seus interesses no poder. De fato, surgiram naquele período vários líderes para abraçar a causa do povo e os mais famosos foram Pompeu (106-48 a.C.) e Júlio César (100-44 a.C.). Durante algum tempo, eles se uniram para tentar obter o controle do governo, porém mais tarde tornaram-se rivais e cada um tentou angariar para si o apoio popular. Pompeu ganhou fama como conquistador da Síria e da Palestina, enquanto Júlio César investia contra os gauleses, acrescentando ao estado romano os territórios hoje ocupados pela Bélgica, Alemanha e França. Em 52 a.C., o Senado romano inclinou-se para Pompeu e conseguiu sua eleição como cônsul único. César, então em campanha na Gália, acabou sendo declarado inimigo do estado, e Pompeu conspirou com o senado para tirar-lhe todo o poder político. O resultado foi uma luta de morte entre os dois. Em 49 a.C. César atravessou o rio Rubicão (que separava a Itália da Gália Cisalpina) com seu exército e marchou sobre Roma. Ele sabia estar na ilegalidade, e foi ao atravessar esse rio que ele teria dito a célebre frase: "A sorte está lançada" (em latim, "Alea jacta est"). Desde então este episódio tornou-se metáfora de uma decisão crucial.

gladiadoresPompeu fugiu para o Oriente, na esperança de juntar um exército suficientemente grande para retomar o controle da Itália. Em 48 a.C., as forças dos dois rivais encontraram-se em Farsália, na Grécia. Pompeu foi derrotado e, vendo-se perdido, fugiu para o Egito, mas lá foi assassinado por agentes do rei egípcio Ptolomeu XIII, que queria agradar ao vencedor. César, que chegou ao Egito em seu encalço, resolveu intervir na política daquele país. Aliou-se a Cleópatra e a fez rainha do Egito, agora vassalo de Roma. Enquanto isso, Farnaces, rei do Bósforo Cimeriano, na Åsia Menor, erguia-se contra Roma. César parte para lá em campanha militar e obtém uma vitória tão rápida que manda a seguinte mensagem para o senado: "Vim, vi, venci" (em latim, "Veni, vidi, vici"). Depois disso voltou a Roma e não havia mais ninguém que se atrevesse a desafiar seu poder. Tornou-se um ditador e, para todos os fins práticos, estava acima da lei. Havia rumores de que tencionava coroar-se rei, e foi com base nessa acusação que ele foi assassinado em 15 de março de 44 a.C. por um grupo de conspiradores chefiado por Brutus e Cassius. Na peça de Shakespeare, a cena do assassinato é uma das mais famosas. César havia chegado ao recinto do Senado quando os conspiradores o cercaram. Cassius deu-lhe a primeira punhalada, no pescoço. César ainda tentou defender-se, mas foi abatido por dezenas de outras punhaladas. Só parou de defender-se quando viu Brutus, seu favorito, entre os assassinos. E disse: "Até tu, Brutus?" (na peça a frase está em latim: "Et tu, Brute?" - ato III, cena 1).

gladiadorCom certeza, César não foi nenhum "salvador" de Roma, pois desprezou a constituição e governou como um ditador. Mas teve o mérito de voltar a atenção de Roma para a Europa Ocidental, quando outros conquistadores rumavam para o Oriente. Com a ajuda de astrônomos criou o calendário juliano, depois corrigido pelo Papa Gregório XIII (1572-85) e usado até hoje. Nada mais justo que o nome do sétimo mês do ano seja em sua homenagem.

Lenore aponta o phaser para Kirk - "Cuidado com os idos de março"A ação da peça Júlio César (Julius Caesar), de Shakespeare, cobre quase dois anos, de 44 a 42 a.C., e trata, basicamente, de dois fatos históricos: a passagem de César pelo capitólio, seu assassínio lá e a Batalha de Filipes, norte da Grécia, onde Antônio e Otávio (mais tarde imperador Augusto) derrotaram Brutus e Cassius, vingando, assim, a morte de César. No episódio A Consciência do Rei, além das referências a Júlio César, há a citação literal de uma frase da peça de Shakespeare. Quase no fim do episódio, quando Lenore enlouquece de vez e aponta o phaser para Kirk, ela diz: "Cuidado com os idos de março" ("Beware the ides of March." - ato I, cena 2) - uma advertência feita a César por um adivinho, que previu sua morte em meados do mês de março.

 

Lenore diz a Kirk que ele é um "César das Estrelas".Em tempo. Na cena do convés de observação, Lenore olha as estrelas e diz: "Estrela, estrela vésper, eu queria ter, eu queria poder - lembra disso, capitão?" Ao que ele responde: "É muito antigo". Não se trata de nehuma citação de Shakespeare, mas de um versinho popular em inglês, de autor anônimo, que as pessoas dizem ao fazer um pedido à primeira estrela avistada no céu:

Starlight, starbright                      pulse.gif (2171 bytes)

I wish I may, I wish I might    

Have the wish I wish tonight

 

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