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TrekkerCultura® -  Boletim Cultural - N. 17

Frota Estelar Brasil

Boletim publicado em outubro de 1998.


Tripulação da Enterprise no filme Jornada nas Estrelas II - A Ira de KhanNo filme Jornada nas Estrelas II - A Ira de Khan, Spock dá um livro de presente ao Capitão Kirk por ocasião de seu aniversário. Kirk lê as primeiras linhas do livro: It was the best of times, it was the worst of times (Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos). Então Kirk pergunta: "Isto é alguma mensagem, Spock?" A que Spock responde: "Não consciente. Exceto, é claro, feliz aniversário". Talvez Spock não tivesse mesmo consciência da mensagem contida no livro, mas Kirk, após a morte de Spock, percebe qual era a mensagem, e diz isso citando as últimas frases do livro. Eu, pessoalmente, só entendi aquela passagem do filme depois que descobri e li o livro que Spock havia dado a Kirk: A Tale of Two Cities (Um Conto de Duas Cidades), de Charles Dickens. E é disso que vai tratar este boletim: a relação entre o livro de Dickens e o filme Jornada nas Estrelas II.

Um Conto de Duas Cidades - Londres e Paris - se passa na época da Revolução Francesa, desde os anos que a antecedem até a fase em que a Revolução perde o rumo e entra no período do Terror. O autor inicia o livro descrevendo o ambiente e a atmosfera daqueles tempos conturbados, que iriam transformar toda a História Ocidental:

It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair, we had everything before us, we had nothing before us, we were all going direct to Heaven, we were all going direct the other way.

Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos, foi a idade da sabedoria, foi a idade da tolice, foi a época de acreditar, foi a época da incredulidade, foi a época da Luz, foi a época da Escuridão, foi a primavera da esperança, foi o inverno do desespero, tínhamos tudo diante de nós, não tínhamos nada diante de nós, estávamos todos indo direto para o Paraíso, estávamos indo direto na direção oposta.

 Dickens descreve o período em que a história se passa com termos exatamente opostos. E opostos também são os dois personagens masculinos principais, Charles Darnay e Sydney Carton, porém com algo em comum: ambos amam a mesma mulher, a bela Lucie Manette, filha de um médico, Dr. Alexandre Manette.

(Atenção, se você ficar perdido em meio a tantos personagens, clique aqui e outra janela se abrirá com um guia de todos os personagens da história. Deixe a janela minimizada para consultá-la sempre que necessário).

A história começa em 1775, com a descoberta de que o Dr.Manette, dado como morto, estava vivo, na casa de Sr. e Sra. Defarge, em Saint Antoine, nos subúrbios de Paris, após ter passado os últimos dezoito anos preso na Bastilha, a famosa prisão de Paris cuja derrubada, em 14 de julho de 1789, marca não só o início da Revolução Francesa como o próprio início de um novo período histórico, a Idade Contemporânea, que se estende até os dias de hoje.

Dr.Manette   havia sido preso injustamente, por vingança. Muitos anos antes, em 1757, andava ele ao longo do rio Sena, em Paris, quando uma carruagem veio em sua direção. Nela estavam dois irmãos gêmeos, os Marqueses de Evremonde, com personalidade arrogante e rude, que vinham lhe pedir ajuda para tentar salvar duas pessoas à beira da morte. Dr.Manette entra na carruagem e parte com os dois para uma casa isolada. Num dos quartos, havia uma bela moça deitada na cama, moribunda. Dr.Manette não pôde fazer nada para ajudá-la. Os Marqueses levam então o médico a outro cômodo, onde há um jovem, também à beira da morte, ferido por uma espada. Ele morre nos braços do Dr.Manette, mas antes revela que ele e sua família eram inquilinos dos Marqueses, para quem trabalhavam. Os dois irmãos, entretanto, eram impiedosos: cobravam impostos extorsivos, exploravam toda a família e os faziam trabalhar sem receber nada. O marido da irmã, a moça que acabara de morrer,  fora tratado tão cruelmente que morrera. A irmã então foi trazida à força para o castelo da família Evremonde e também maltratada. O pai morreu de desgosto e agora ele, o jovem irmão, na tentativa de resgatar a irmã, é também covardemente assassinado por um dos irmãos.

Dr.Manette, obviamente indignado com tal revelação, decide mandar uma carta ao Ministro da Justiça, denunciando os abusos. Os Evremondes, no entanto, tinham influência na Corte e conseguem a prisão do Dr.Manette, sem julgamento ou direito de defesa. Ele simplesmente desaparece, deixando para trás sua mulher e sua pequena filha, Lucie. Dois anos depois, a mãe de Lucie morre e a pequena órfã é levada para Dover, na Inglaterra, por um amigo da família, o Sr. Lorry, que cuidava dos negócios do Dr.Manette e trabalhava num banco que possuía agências tanto na França quanto na Inglaterra.

Dr. Manette é encarcerado na cela número 105 da Torre Norte da Bastilha. Na prisão, porém, escreve uma carta contando toda sua história e a esconde no teto da cela, na esperança de que um dia ela seria encontrada, colocando em desgraça os irmãos Evremonde, bem como todos seus descendentes. Com o passar do tempo, Dr.Manette vai enlouquecendo e perde totalmente a memória.

Em 1775, assim que o Sr. Lorry descobre o paradeiro do Dr.Manette, ele leva a jovem Lucie ao encontro de seu pai, na tentativa de restaurar-lhe a saúde mental. Eles permanecem alguns dias em Paris e depois retornam à Inglaterra. Na viagem de volta, Lucie conhece um certo  Charles Darnay, francês que viaja freqüentemente entre a França e a Inglaterra a negócios.

Cinco anos mais tarde, em 1780,  Charles Darnay é acusado de espionagem contra a Inglaterra e Lucie é chamada como testemunha por tê-lo visto viajar entre a França e a Inglaterra cinco anos antes. Ela confirma, mas acrescenta que ele havia sido muito gentil com ela e com seu pai, e que não aparentava ser um espião. Uma outra testemunha, porém, afirma ter visto  Darnay em atitude suspeita na Inglaterra. O advogado de defesa então lhe pergunta: "Você tem certeza de que era   Darnay? Não poderia ser alguém parecido com ele? As pessoas às vezes se parecem... Olhe para meu assistente!" O assistente do advogado tira uma peruca que estava usando e todo o tribunal tem uma surpresa: o assistente do advogado, o inglês Sydney Carton, era um perfeito sósia de  Darnay! Diante desse argumento, Darnay é considerado inocente - como de fato o era.

A partir daí, tanto Carton quanto  Darnay apaixonam-se por Lucie, mas ela corresponde apenas ao amor de  Darnay, tornando-se amiga de Carton.  Charles Darnay e Sydney Carton, apesar de fisicamente muito parecidos, eram dois opostos: Carton, inglês, era um advogado dissoluto, solitário, que não tinha rumo certo na vida e bebia demais - era um talento desperdiçado;  Darnay, francês, era ético, correto, um verdadeiro nobre.

Capa de uma das edições de "Tale of Two Cities"Depois de algum tempo,  Darnay pede a mão de Lucie em casamento a seu pai, Dr.Manette, a essa altura já recuperado. Sydney Carton, ao ficar sabendo que Lucie ia se casar, vai ao seu encontro, declara seu amor e reconhece que jamais poderá tê-la. Diz que ela havia sido sua última esperança de dar um sentido à sua vida e que, só por isso ele já lhe era grato. Por ela ou qualquer um que ela amasse, daria sua própria vida.

Enquanto isso, em Saint Antoine, na França, o povo passa fome. Um tonel de vinho cai acidentalmente na rua e todos correm para lamber o líquido que escorre nas pedras do calçamento. Nesse momento, uma carruagem em alta velocidade vem pela rua, atropelando e matando um menino. A carruagem pára e um homem aparece na janela: é um dos irmãos Evremonde (o outro já havia morrido), que joga uma moeda para o pai do menino, como "indenização" pela sua morte. O pai joga a moeda de volta e o Marquês vai embora, praguejando. Por essas e outras, a família Evremonde era odiada por aqueles que, poucos anos depois, fariam a Revolução Francesa.

De volta para casa, o Marquês encontra alguém à sua espera: seu sobrinho, filho de seu irmão gêmeo morto. Seu sobrinho Charles Evremonde, conhecido na Inglaterra como...  Charles Darnay! Ele vem para dizer que renuncia a tudo: seu nome, suas propriedades, tudo, por não concordar com o modo como a nobreza francesa tratava seu povo.  Darnay parte de volta para a Inglaterra. Naquela mesma noite, o pai do menino atropelado invade o castelo do Marquês e o mata, em vingança.  Darnay herda as propriedades do tio, mas deixa tudo para um velho empregado de confiança.

Chega o dia do casamento e  Darnay revela a Dr.Manette sua verdadeira origem. Dr.Manette entra em choque, pois descobre que seu futuro genro pertence à mesma família que ele condenara em sua carta, escondida na cela da Bastilha. Porém, ele não conta nada a  Darnay e o casamento prossegue. Os anos vão se passando e a situação na França se agrava. Na Inglaterra,  Darnay e Lucie têm uma filha, que recebe o mesmo nome da mãe. Sydney Carton continua amigo da família. Até que chega 14 de julho de 1789...

A Revolução eclode na França e todos os nobres são perseguidos.  Darnay recebe uma carta desesperada de seu fiel empregado, que ficara com suas propriedades, dizendo que os revolucionários o estavam ameaçando com a guilhotina caso não revelasse o paradeiro do herdeiro dos Marqueses de Evremonde. Darnay sente-se na obrigação moral de socorrê-lo e parte secretamente para a França, deixando uma carta explicando tudo a Lucie. Entretanto, assim que chega à França, é levado à prisão. Lucie, sua pequena filha e Dr.Manette vão à França em socorro de Darnay, mas inutilmente.

Defarge, aquele que havia acolhido o Dr.Manette após sua saída da Bastilha, sabia que o médico havia escrito uma carta denunciando quem havia matado toda uma família de camaradas seus no passado. Ele vai até a cela 105 e descobre a carta. A Sra. Defarge revela que aquela família era sua família. Ela era a única sobrevivente do massacre dos Marqueses. Darnay é levado a julgamento e Defarge mostra ao tribunal a carta escrita por Dr.Manette. Os irmãos Evremonde e todos os seus descendentes são considerados inimigos do povo.  Darnay é condenado à morte na guilhotina. Dr.Manette não se conforma de ter sido o causador da condenação do próprio genro inocente. A Revolução ficava cada vez mais violenta. Centenas de pessoas eram mandadas à guilhotina. Primeiro os nobres, depois os próprios revolucionários menos radicais. A Sra. Defarge personifica essa exacerbação da revolução ao não se contentar apenas com a condenação de  Darnay. Para ela, Lucie e sua filha também mereciam ir à guilhotina, por serem ambas da família Evremonde.

A situação parecia completamente sem esperança. Mas então surge alguém que salva a todos: Sydney Carton, o sósia de  Charles Darnay. Ele orienta o Sr. Lorry a esperá-lo numa carruagem em determinado lugar e hora, com Lucie e sua filha, para todos escaparem de volta à Inglaterra. Enquanto isso, vai à prisão onde está  Darnay - que iria para a guilhotina uma hora depois - e convence o carcereiro, seu amigo, a deixá-lo entrar. Ele entra na cela de Darnay, o desacorda com um remédio e troca de roupa com ele. Em seguida, chama o carcereiro e pede-lhe que leve Darnay - ou melhor "Sydney Carton", a uma carruagem que o espera perto dali. Em suma: Carton decide morrer no lugar de  Darnay, para que Lucie e sua filha pudessem ser felizes. De certa forma, era como se ele, a partir daquele momento fosse viver a vida de Darnay - que agora passaria a usar seu nome.

Lucie, sua filha, o Sr. Lorry e "Sydney Carton" (Darnay, ainda desacordado) conseguem fugir a salvo para a Inglaterra. Enquanto isso, Carton sobe na plataforma, para morrer. Disseram que nunca haviam visto um semblante tão tranqüilo como o dele antes de ir para a guilhotina. FIM.

Bem, uma bela história -- dirá você --, mas o que tem a ver com Star Trek e Jornada nas Estrelas II? Eu diria que tem tudo a ver. Por que Spock morre no filme? Não é para salvar a Enterprise e deixá-la com quem ele achava que ela pertencia, o Capitão Kirk? Qual é a primeira pergunta que ele faz a Kirk, antes de morrer? "A nave está fora de perigo?" Ele nunca havia feito o teste do Kobayashi Maru, mas encontrou uma solução para uma situação sem saída -- assim como Sydney Carton. Ambos, Carton e Spock, deram a própria vida em nome de algo maior, ambos acharam que "as necessidades de muitos se sobrepõem às necessidades de poucos -- ou de um". Ambos acharam que sua morte daria sentido para toda a sua vida.

Kirk "captou" a mensagem de Spock e, olhando para o recém-criado planeta Gênesis, citou a frase final de Um Conto de Duas Cidades -- a frase que Sydney Carton pensou segundos antes de morrer na guilhotina:

It is a far, far better thing that I do, than I have ever done; it is a far, far better rest that I go to than I have ever known.

Esta é, com certeza, a melhor coisa que eu faço, que eu já fiz; este será, com certeza, o melhor descanso que terei e que jamais tive.

A Dra. Marcus lhe pergunta se aquilo é um poema e Kirk diz: "Não, é algo que Spock queria dizer no meu aniversário". Qual era a mensagem, afinal? Que Spock sempre seria amigo de Kirk e morreria por ele e pela nave, se fosse preciso. 

Charles DickensO escritor Charles Dickens nasceu em 1812, na Inglaterra. Teve uma infância muito difícil, chegando a passar fome. Seu pai foi preso por causa de dívidas e Dickens escreve memórias desse período doloroso em David Copperfield (1850) e em outras obras. Ele escreveu a maior parte de suas obras, inclusive Um Conto de Duas Cidades (1859), em capítulos publicados nos jornais. O povo seguia avidamente suas histórias, da mesma forma que as pessoas seguem as novelas hoje em dia. Mas suas publicações tinham inegável qualidade literária, tanto que Dickens é considerado um dos maiores escritores ingleses. Outras obras famosas são As Aventuras do Sr. Pickwick (1837), Oliver Twist (1837), Grandes Esperanças (1861) e Conto de Natal (1843). Esta última obra foi adaptada para o palco e encenada por Patrick Stewart, o Cap. Picard, alguns anos atrás, alcançando enorme sucesso de crítica e público, rendendo vários prêmios ao ator. No momento, Stewart está trabalhando numa adaptação de Conto de Natal para a TV.

Bem, este foi o último TrekkerCultura sobre o filme A Ira de Khan. No próximo, vamos falar do Paraíso. Até lá. Vida Longa e Próspera!


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