TrekkerCultura

TrekkerCultura® -  Boletim Cultural - N. 20

Frota Estelar Brasil

Boletim publicado em outubro de 2000

luz_ponte.gif (4176 bytes)

Apolo apaixona-se por Carolyn.Os roteiristas de Jornada nas Estrelas adoram usar citações literárias em títulos de episódios. O título do episódio Um Lamento por Adônis (Who Mourns for Adonais), da série clássica, foi retirado de um famoso poema do inglês Percy Shelley (1792-1822). É sobre isso que vamos falar neste boletim.

O episódio trata da famosa teoria dos "deuses astronautas", que tem no alemão Erich von Däniken seu maior defensor. Segundo essa teoria, viajantes espaciais teriam visitado a Terra séculos atrás, tendo sido aceitos como deuses pelos primitivos seres humanos. Mas o objetivo deste boletim não é discutir teorias polêmicas, e sim comentar as citações literárias, então vamos lá!

"Who mourns for Adonais" é um verso da elegia (poema lírico, em tom terno e triste) que Percy Shelley escreveu em homenagem ao amigo John Keats (1795-1821), um dos maiores poetas britânicos, que morrera vítima de tuberculose. Shelley e Keats foram amigos íntimos por um curto período de tempo entre 1917 e 1918. Algum tempo depois, Keats, já muito doente, aceitou o convite de Shelley para ir morar em sua casa na Itália, na esperança de que os ares do Mediterrâneo ajudassem em sua recuperação. Mas sua saúde estava bastante debilitada e ele acabou falecendo em fevereiro de 1821.

Shelley pôs-se então a escrever Adonais, poema com 55 estrofes e 495 versos, em homenagem ao poeta morto. No poema, ele compara o amigo morto a Adônis, deus da mitologia grega. Não se sabe por que ele alterou a grafia para "Adonais", mas os críticos e estudiosos são unânimes na interpretação de que se trata de uma referência a essa divindade, filho de Afrodite.

Percy ShelleyAfrodite era a deusa da natureza na Grécia Antiga e era adorada principalmente durante a primavera, em meio aos bosques e jardins floridos. Entretanto, todos percebiam como eram curtas as festas da primavera. De fato, as flores mal acabavam de desabrochar e já murchavam. Assim, para explicar esse crescimento e morte tão rápidos, os gregos criaram a maravilhosa lenda de Adônis.

Imaginando ser Afrodite a mãe da vegetação, deram-lhe um filho, Adônis, que representava a radiosa mas breve eclosão da primavera. Adônis nasceu, então, no início da primavera, estalando da casca de uma árvore. Seu crescimento foi rápido. Sua vida, entretanto, foi como a das rosas: efêmera e prematuramente ceifada pela morte. Foi justamente no fim do verão, quando as flores pendem e morrem, que Adônis partiu também para o mundo invisível. Ele perseguia um javali, quando o animal voltou-se contra ele e feriu-lhe mortalmente. Ouvindo os gritos do filho, Afrodite correu para salvá-lo. No caminho, pisou descalça numa roseira; o sangue escorreu de seus pés e o arbusto, que até então só dava rosas brancas, passou a dar rosas vermelhas. Quando chegou até o filho, encontrou-o morto e gelado.

A vida esplêndida de Adônis e sua morte prematura eram objeto de verdadeiro culto na Grécia Antiga. No dia marcado para comemorar sua dolorosa morte, as mulheres choravam, soluçando e gritando. Sobre um leito de prata recoberto de púrpura, jazia um simulacro do corpo de Adônis morto. Uma abóbada de vegetais protegia o leito mortuário. Viam-se por toda parte dezenas de oferendas, como frutos variados e frascos de perfume. Em Retrato de John Keats, feito pouco antes de sua morte pelo amigo Joseph Severntorno daquela "capela", as desoladas adoradoras de Adônis desfilavam durante um dia e uma noite, batendo no peito e gemendo como em funerais autênticos. No amanhecer do dia seguinte, as mulheres, descabeladas e ainda soltando gritos de dor, iam, em grande pompa, jogar o "corpo" nas ondas do mar. Assim que o "corpo" afundava sob as águas, elas passavam a entoar alegres cânticos, pois Adônis, com as chuvas da próxima estação, ressuscitaria na vegetação.

Em seu poema, Shelley quis expressar a semelhança entre Keats e Adônis. Da mesma forma que o ser mitológico, Keats também morreu precocemente, aos 26 anos, após tão fértil produção literária - como flores desabrochando na primavera para morrerem em seguida.

Shelley inicia o poema pedindo que chorem por "Adonais" (Keats), da mesma forma que as mulheres choravam por Adônis.

I weep for Adonais - he is dead!
Oh, weep for Adonais! though our tears
Thaw not the frost which binds so dear a head!

Eu choro por Adonais – ele está morto!
Oh, chorem por Adonais! Embora nossas lágrimas
Não possam derreter o gelo que se formou em torno de alguém tão querido!

O primeiro verso da 47ª estrofe traz o título do episódio de Jornada. Novamente, ele pergunta quem chora pela morte de Adonais.

Who mourns for Adonais? Oh, come forth,
Fond wretch!

Quem chora pela morte de Adonais? Oh, apareça,
Desolado adorador!

Mas a dúvida agora surge: por que citar Adônis no título se o personagem principal do episódio é Apolo? Apolo e Adônis são deuses diferentes da mitologia grega. Apolo, filho de Zeus, era patrono da profecia, da arte de usar o arco e a flecha, da juventude e da medicina, e deus da claridade.

adonais11.jpg (11845 bytes)Talvez o roteirista - além de tornar o título mais "sofisticado" por citar um poeta famoso - tenha desejado fazer um paralelo entre um poeta que chora a morte de outro e a humanidade que chora a morte de seus deuses. No final do episódio, Kirk e a tripulação também lamentam a "morte" de Apolo, ou seja, lamentam ter perdido o último "deus" grego, parte de uma mitologia que tanto influenciou a cultura ocidental.

Diferentemente de Adônis, vida longa e próspera a todos! Até a próxima.

 

 

Anterior | Próximo

Página Inicial