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TrekkerCultura® -  Boletim Cultural - N. 21

Frota Estelar Brasil

Boletim publicado em novembro de 2000


"Por Qualquer Outro Nome"

O kelvan Rojan com dois "tripulantes" nas mãos.Mais um título de episódio da série clássica de Jornada nas Estrelas foi retirado de uma obra literária - By Any Other Name ("Por Qualquer Outro Nome"), do segundo ano. Desta vez, os roteiristas foram beber numa fonte quase inesgotável para citações: a obra do dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare (1564-1616). O autor é um dos mais citados em Jornada nas Estrelas, tanto que os boletins do Trekker Cultura números 7, 8, 9, 10 e 11 falaram sobre o dramaturgo e sua obra.

Para quem não se lembra, o episódio Por Qualquer Outro Nome é aquele em que alienígenas da raça Kelvan, originários da galáxia de Andrômeda, assumem a forma humana e tomam o controle da Enterprise, transformando quase toda a tripulação em pequenos blocos tetraedos. Apenas Kirk, Spock, McCoy e Scotty são poupados do processo. O objetivo é utilizar a nave para levá-los de volta a Andrômeda, numa viagem de 300 anos, com a informação de que nossa galáxia é adequada à colonização. Para retomar o controle da Enterprise, Kirk e seus companheiros resolvem tirar vantagem das emoções recentemente adquiridas pelos alienígenas, como ciúme e raiva. Numa cena memorável, Scotty tenta embebedar um dos kelvans, utilizando todo o seu estoque de bebidas, incluindo a garrafa de um líquido alienígena sobre o qual o engenheiro nada sabe, a não ser que "é verde"!

Como sempre, em meio a uma crise, o capitão Kirk encontra um bom motivo para seduzir uma mulher – neste caso, a atraente Kelinda. O romance com o capitão serve para despertar o ciúme de Rojan, o líder dos kelvans. Numa cena entre os dois, Kelinda aprecia uma flor e diz que em seu planeta ela tem outro nome, a que o capitão responde: "É a rosa, por outro nome".

Rojan e KelindaEstes versos fazem parte da famosa tragédia Romeu e Julieta, de Shakespeare. Todos com certeza já ouviram falar da história de amor impossível entre os dois jovens de Verona, na Itália, filhos de duas famílias inimigas: Capuleto (Capulet, no original) e Montecchio (Montague, no original).

Certo dia, o velho Capuleto, pai de Julieta, dá um grande baile. Romeu, filho do velho Montecchio, vai mascarado à festa e fica impressionado com a beleza de uma jovem. Esta jovem é Julieta, que também se encanta com Romeu. Entretanto, quando os dois descobrem que são filhos de famílias inimigas, ficam perturbados.

À meia-noite, Romeu e seus amigos Benvólio e Mercúcio deixam o baile. Logo, porém, dão pela falta de Romeu, que, não conseguindo ficar longe do lugar onde deixara seu coração, voltara e pulara o muro de um pomar que havia nos fundos da casa de Julieta. Estava lá há pouco tempo quando viu a bela jovem sair na sacada de seu quarto. Foi desta cena que retiraram o título do episódio Por Qualquer Outro Nome. Veja a seguir. Sem saber que estava sendo observada, Julieta soltou um profundo suspiro e exclamou:

O Romeo, Romeo! wherefore art thou Romeo?
Deny thy father and refuse thy name;
Or, if you wilt not, be but sworn my love,
And I’ll no longer be a Capulet.
...................

‘Tis thy name that is my enemy; —
Thou art thyself though, not a Montague.
What’s Montague? It is nor hand, nor foot,
Nor arm, nor face, nor any other part
Belonging to a man. O, be some other name!
What’s in a name? that which we call a rose,
By any other name would smell as sweet.


Oh, Romeu, Romeu! Por que és Romeu?
Renega teu pai e repudia teu nome;
Ou, se não quiseres, jura que me ama,
E deixarei de ser Capuleto.
...................

Teu nome é que é meu inimigo; —
Tu és tu, não um Montecchio.
O que é um Montecchio? Não é mão, nem pé,
Nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte
Pertencente a um homem. Oh, sê algum outro nome!
O que há num nome? aquela que chamamos de rosa,
Por qualquer outro nome exalaria o mesmo doce perfume.


 Romeu então não se contém e revela sua presença. Os dois jovens passam a trocar juras de amor e decidem ali mesmo que irão se casar. Julieta promete enviar-lhe um mensageiro no dia seguinte para combinarem a data do casamento. Os dois não conseguem despedir-se, pois é difícil para dois jovens apaixonados dizerem boa noite.

 Neste trecho da cena, Julieta diz uma frase que foi citada por Chang, o vilão klingon do filme Jornada nas Estrelas VI – A Terra Desconhecida, quando ele se despede do capitão Kirk: "parting is such sweet sorrow" (a despedida é uma tristeza tão doce). Este filme, aliás, está recheado de citações de Shakespeare, a começar pelo título. Mas isso fica para depois. Julieta diz a Romeu:

 Good night, good night! parting is such sweet sorrow,
That I shall say good night till it be morrow.

Boa noite, boa noite! a despedida é uma tristeza tão doce,
Que eu direi boa noite até amanhecer.

Bem, depois disso, o fim da tragédia é conhecido. Eles se casam às escondidas na manhã do dia seguinte ao baile. Por volta do meio-dia, Mercúcio, amigo de Romeu, é morto durante uma briga com Teobaldo, primo de Julieta. Romeu, em vingança pela morte do amigo, mata Teobaldo e é banido de Verona, sendo forçado a partir para Mântua.

Enquanto isso, o pai de Julieta, sem saber de seu casamento secreto, promete a mão da filha em casamento ao jovem conde Páris. Julieta prefere morrer a casar-se com outro, estando seu verdadeiro esposo ainda vivo. Desesperada, procura Frei Lourenço, o padre que os casara, em busca de conselhos. O frei lhe diz que ela deve fingir aceitar o casamento, mas, na noite anterior à cerimônia, deve tomar todo o conteúdo de um frasco que ele lhe dá – o remédio a fará parecer morta. Depois que seu corpo fosse depositado na cripta da família, Romeu viria encontrá-la para que fugissem juntos. O frei então revelaria o casamento a ambas as famílias, esperando com isso reconciliá-las.

Cenas de Romeu e Julieta (1996, com Leonardo DiCaprio)

Julieta faz tudo de acordo com as recomendações do padre e amanhece aparentemente morta. A família, em prantos, transforma os preparativos do casamento em preparativos para o funeral. Como as más notícias correm mais depressa que as boas, logo a notícia da morte de Julieta chega ao ouvidos de Romeu, antes que uma carta do frei explicando o plano chegue a suas mãos.

Romeu, transtornado, retorna a Verona para despedir-se de sua falecida esposa e, à noite, esgueira-se pela cripta da família Capuleto. Ao ver sua amada supostamente morta, engole veneno e se mata. Pouco depois, a jovem desperta, vê seu amado morto ao seu lado e compreende que ele chegara cedo demais ao seu encontro. Desesperada, ela também se mata, apunhalando-se com um punhal.

 

Cena de Romeu e Julieta (1968)

Romeu e Julieta em vídeo

 

Esqueça a versão de 1996 com Leonardo DiCaprio, que modernizou a trama com a intenção de seduzir a garotada acostumada à estética do videoclipe. A melhor versão de Romeu e Julieta para o cinema é a do diretor italiano Franco Zefirelli, de 1968. O diretor italiano recriou a atmosfera de Verona do século 15 e escalou para os papéis principais dois adolescentes então desconhecidos: Leonard Whiting, de 17 anos, e Olivia Hussey, de 15. Como resultado, o filme ganhou o merecido Oscar de fotografia e figurinos. Imperdível.

 

 

 


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