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TrekkerCultura® -  Boletim Cultural - N. 5

Frota Estelar Brasil

Boletim publicado em 1992.


No TrekkerCultura n. 4 falamos a respeito de William Blake autor do poema The Tiger, cujos dois primeiros versos são recitados por Spock numa cena do episódio Charlie-X Logo em seguida, na mesma cena, Spock diz este verso: "Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary". Trata-se do primeiro verso do célebre poema The Raven (O Corvo), do americano Edgar Allan Poe (1809-1849). Em The Raven, com suas 18 estrofes, o poeta começa falando da dor que ainda sente pela morte da amada, Lenore. Está em seu quarto, triste, a ler um velho livro, quando batem à sua porta:

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore - 
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door. 
"'Tis some visitor", I muttered, "tapping at my chamber door; 
Only this and nothing more".

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora
Eu caindo de sono e exausto de fadiga
Ao pé de muita lauda antiga
De velha doutrina, agora morta
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho
Há de ser isso e nada mais". (Tradução de Machado de Assis)

Ele abre a porta e não vê ninguém. Batem novamente, desta vez mais forte. Ele então abre a janela, e eis que um corvo entra e vai pousar em cima de um busto de Palas (deusa da mitologia grega). O poeta ri e pergunta:

"Tell me what thy lordly name is on the Night Plutonian shore!" 
Quoth the Raven, "Nevermore".

"Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?" 
E o corvo disse: "Nunca mais".

Apesar de tal resposta não fazer sentido, o poeta se surpreende ao ouvir o corvo falar. Em seguida, mergulhado ainda na dor de sua solidão, o poeta diz a si mesmo, a respeito do pássaro:

Till I scarcely more than muttered, "Other friends have flown before
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before".
Then the bird said, "Nevermore".

Até que murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais
Perderei também este
regressando a aurora".
E o corvo disse: "Nunca mais".

Quão exata era a resposta! Tudo o que o corvo dizia eram estas palavras, mas que agora começavam a fazer sentido. O poeta se acalma, conjecturando que talvez sejam aquelas as únicas palavras que a negra ave havia aprendido. Ele então se acomoda em sua poltrona e exclama que Deus mandou aquela ave para ajudá-lo a esquecer Lenore. Ao ouvir isso,

Quoth the Raven, "Nevermore".

O corvo disse: "Nunca mais".

Profeta ou ave do demônio! As mesmas palavras, e fazem sentido! Ele pergunta então:

Is there – is there balm in Gilead? – tell me – tell me, I implore!"
Quoth the Raven, "Nevermore".

"Dize-me: existe um bálsamo no mundo?" 
E o corvo disse: "Nunca mais".

O poeta começa a achar então que a ave foi enviada pelo demônio, não por Deus, e tenta em vão expulsá-lo. Esta é a última estrofe do poema. Atente para as belas aliterações do original.

And the Raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Palas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming
And the lamp-light o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor 
hall be lifted – nevermore!

E o corvo aí fica, ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho
Parece, ao ver-lhe o duro cenho
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca mais!

Edgar Allan Poe, que teve uma vida atribulada, marcada pelo alcoolismo, vindo a morrer, literalmente, na sarjeta, talvez seja mais conhecido por seus contos e novelas de terror e mistério, como The Fall of the House of Usher (A Queda da Casa de Usher), The Black Cat (O Gato Preto), além de narrativas policiais, das quais se destaca The Murders in the Rue Morgue (Os Crimes da Rua Morgue). Suas obras inspiraram muitos filmes (que, segundo os críticos, nunca conseguiram traduzir o terror psicológico que elas continham), histórias em quadrinhos e pelo menos um disco, do Alan Parsons ProjectTales of Mystery and Imagination / Contos Extraordinários – homônimo do mais conhecido livro de contos de Poe.

Edgar Allan Poe, na opinião de muitos, continua insuperável em seu estilo "gótico". Dizem que outro escritor maldito como ele... nevermore!

 

 

poema original  |  tradução de Machado de Assis   |  tradução de Fernando Pessoa

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